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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Por que os exercícios são pouco eficientes para perder peso?

 interessante artigo publicado por Alicia Kowaltowski, médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”.


confira em https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2021/Por-que-exerc%C3%ADcios-s%C3%A3o-pouco-eficientes-para-perder-peso 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

A Saúde Mental e Seus Determinantes Sociais

fonte: The Lancet, vol 398, número 10.305, 18.09.21 

As opiniões sobre a importância relativa das causas biológicas e sociológicas dos problemas de saúde mental passaram rapidamente de um extremo a outro nos últimos 50 anos. Portanto, quando Vivian Pender, a recém-eleita presidente da American Psychiatric Association (APA), declarou em julho que “precisamos estar mais atentos ao contexto mais amplo em que essa doença ocorreu e como esse contexto moldou o resultado da saúde”, os cínicos podem ser perdoados por pensar que isso é apenas mais uma oscilação do pêndulo. No entanto, talvez desta vez Pender - e muitos outros, pois ela não está sozinha - tenha acertado.
Muitas evidências foram publicadas apoiando o apelo de Pender para que os determinantes sociais sejam considerados como a chave na compreensão e no tratamento de doenças mentais. Comissão Lancet sobre saúde mental global e desenvolvimento sustentável afirmou que a pesquisa mostra consistentemente uma forte associação entre desvantagem social e saúde mental precária. No plano individual, a Comissão informou que a pobreza, as adversidades na infância e a violência são os principais fatores de risco para os transtornos mentais. A pandemia COVID-19 chamou ainda mais a atenção sobre a importância dos determinantes sociais em causar doenças mentais e físicas .
O fato de Pender ter sentido a necessidade de criar uma força-tarefa para examinar esta questão, reportando-se à reunião anual da APA em maio de 2022, provavelmente reflete a força com que muitos psiquiatras dos EUA estão apegados ao modelo biomédico de doença mental e à utilidade da farmacoterapia . Alcançar o receituário certamente é mais fácil do que consertar as circunstâncias econômicas e sociais de um paciente. Mas os tratamentos atuais, incluindo medicamentos e terapia oral, têm suas limitações. Pender não descarta a importância da medicação, mas incentiva os colegas a repensar as abordagens tradicionais em relação aos pacientes. Esses ideais ecoam acadêmicos que, na tentativa de satisfazer protagonistas ardentes de ambos os campos, propuseram um modelo convergente de saúde mental que reúne descobertas tanto da psiquiatria quanto da neurologia,
O conceito emergente de boa saúde cerebral - definido de várias maneiras , mas de acordo com a OMS, um estado em que cada indivíduo pode otimizar seu funcionamento cognitivo, emocional, psicológico e comportamental; não apenas a ausência de doença - oferece uma maneira de aproximar partes díspares. Ao exigir boa saúde cerebral, clínicos reducionistas e focados em doenças (psiquiatras e neurologistas), profissionais de saúde e pesquisadores podem ser encorajados a deixar seus silos e trabalhar juntos para um bem comum. Um conjunto holístico de intervenções é necessário para uma boa saúde do cérebro, não apenas ao longo de todo o curso de vida, mas também na sociedade em geral.
Abordar os determinantes sociais da saúde mental exigirá ações em muitas frentes. No nível populacional, as considerações devem incluir disparidades econômicas e comerciais, conflitos e suas consequências, diferenças culturais e sociais e os ambientes físicos e naturais. No nível individual, o foco deve ser a saúde materno-infantil, a educação, o emprego e a qualidade do trabalho e o envelhecimento saudável. Notavelmente, as intervenções direcionadas aos transtornos mentais comuns e seus fatores de risco têm seus maiores efeitos durante a infância e a adolescência, enfatizando a necessidade de direcionar os períodos sensíveis ao desenvolvimento no curso de vida.
Globalmente, a ação definitiva para enfrentar os determinantes mais amplos das desigualdades na saúde e doenças mentais - incluindo pobreza, racismo e discriminação - continua a ser uma prioridade baixa em muitos países. Na Inglaterra, por exemplo, a expectativa de vida estagnou desde 2010, provavelmente devido à queda dos padrões de vida e cortes nos serviços públicos. A iniciativa Healthy People 2030 do governo dos EUA , que define metas nacionais para a promoção da saúde e prevenção de doenças e inclui vários determinantes sociais, indica uma mudança de direção nos EUA. Em maio, o governo Biden também lançou uma iniciativa única buscando informações dos setores público e privado para obter ideias sobre como comunidades historicamente carentes podem ser ajudadas de forma equitativa.
Esses planos são louváveis. Serviços e soluções para o desemprego, problemas de moradia, preocupações financeiras, consumo excessivo de álcool, uso de cannabis e outras drogas ilícitas, violência doméstica e preocupações com a segurança e educação infantil devem ser disponibilizados universalmente, juntamente com o fornecimento de dietas saudáveis ​​e atividade física. em um serviço de atenção integrada holística. Os governos devem fazer melhor. E o clínico, enfrentando pacientes atendidos repetidamente com problemas de saúde cerebral - manifestando-se na maioria das vezes como depressão, ansiedade e dificuldades de sono e memória - tem o dever de cuidar de exigir tais medidas; sem eles, o sofrimento continuará.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Narguilé e cigarros eletrônicos fazem mal à saúde

No Dia Nacional de Combate ao Fumo, 29 de agosto, o Conselho Federal de Medicina (CFM) chama atenção dos médicos e da sociedade sobre os riscos relacionados ao consumo do narguilé e do cigarro eletrônico, utilizados especialmente entre os jovens. A Comissão de Controle do Tabagismo do CFM produziu alerta – referendado pelo plenário da entidade – onde ressalta que todas as formas de uso do tabaco, mesmo aquelas apontadas - de forma equivocada - como menos nocivas, comprometem a saúde e uma melhor qualidade de vida. 
Segundo o CFM, há um acúmulo de evidências que sugerem que fumar narguilé e cigarros eletrônicos podem trazer riscos semelhantes ou mesmo maiores que outras formas de uso de tabaco, comprometendo a saúde de seus usuários. “A concentração de nicotina nesses produtos é extremamente alta. Uma hora de uso do narguilé corresponde a 100 cigarros comuns”, apontam o membro da Comissão, Alberto José de Araújo.
 No alerta, o CFM pede ainda que o Governo (em todas as suas esferas de decisão) elabore e implemente nas políticas públicas de combate ao tabagismo ações específicas relativas ao narguilé e ao cigarro eletrônico, com a adoção de campanhas de esclarecimento e definição de linhas de tratamento e orientação nos serviços específicos.
 Artesanal - Outro ponto de preocupação, segundo o CFM, é que o narguilé funciona como porta de entrada para o consumo de cigarros. “Há estudos demostrando o preocupante aumento de jovens consumindo-os. A grande parte dos fumantes de hoje começaram o vício com menos de 18 anos”, relata Araújo. O comércio do narguilé no Brasil não é proibido por ser considerado “produto artesanal”.
 
 O alerta com relação aos cigarros eletrônicos (e-cigarros) - proibido no Brasil pela Anvisa, desde 2009 – está vinculado aos efeitos de longo prazo, sobretudo comportamentais. De acordo com estudos internacionais, como produto que libera níveis mais baixos de toxinas do que os cigarros convencionais, ele é utilizado por alguns como subterfúgio para abandonar o tabagismo. Contudo, seu uso contínuo tem demonstrado efeito contrário, ou seja, seus usuários costumam se tornar fumantes intensos.
 Além disso, o e-cigarro polui o ambiente e emite um vapor de água com componentes prejudiciais à saúde. “O e-cigarro coloca o fumante com as mesmas condições e problemas do que cigarro comum. Não há indícios científicos que comprovam que este produto auxilia o fumante a largar o vício e as pessoas passivamente expostas ao aerossol (vapor) de e-cigarros também absorvem nicotina (medida como seu metabólito, a cotinina)”, alerta Araújo.
Cartilha – O alerta aos médicos e à sociedade não foi a única iniciativa do CFM em apoio ao Dia Nacional de Combate ao Fumo. Também foi lançada uma cartilha direcionada aos profissionais relacionando as consequências do tabagismo sobre a saúde. A publicação, que se encontra disponível na íntegra para leitura e download no site do CFM, é composta de 17 temas, que apontam os problemas gerados pelo consumo ou contato com o tabaco no organismo humano.
 “A proposta é demostrar as consequências do tabagismo que estão cineticamente comprovadas”, disse o coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo do CFM, conselheiro Gerson Zafallon Martins, representante do Paraná na entidade. A cartilha será enviada aos CRMs para distribuição, bem como para entidades de classe, bibliotecas e escolas de medicina.
 Entre os pontos abordados, alguns se destacam pela curiosidade. Por exemplo, fumar aumenta seis vezes o risco de periodontite, o que leva à perda dos dentes. De acordo com a literatura médica, o consumo do tabaco está associado ao aumento do risco de morte súbita, acidente vascular encefálico, úlcera péptica, transtornos hepáticos, bem como à incidência de câncer “atingindo os pulmões e vários órgãos e sistemas do organismo humano”, entre outros problemas.
 De acordo com estatísticas oficiais, apesar da queda do número de fumantes nos últimos anos, 25 milhões de brasileiros ainda mantém o hábito. Todos os anos, o tabagismo é corresponsável pela morte de aproximadamente 200 mil pessoas no país.

fonte: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25005:cfm-alerta-que-narguile-e-cigarro-eletronico-tambem-sao-prejudiciais-a-saude&catid=3

sábado, 14 de junho de 2014

CFM se posiciona sobre a discriminalização da maconha

O Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou nesta sexta-feira (6) nota com esclarecimentos à população sobre a não se confundir o uso de "canabinoides" (isolados, titulados e pesquisados para fins medicinais) com o produto in natura para uso fumado ou ingerido, o qual não apresenta valores científico ou terapêutico.

A entidade ressaltou que defende pesquisa com quaisquer substâncias ou procedimentos para combater doenças, desde que regidos pelas regras definidas pelo sistema CEP/CONEP e aplicados em centros acadêmicos de pesquisa.

Na nota, o CFM alerta ainda que o atual debate no parlamento sobre a descriminalização / legalização das "cannabis indica e sativa" para consumo "recreativo" desvia a atenção do povo brasileiro do debate sobre temas cruciais como a insegurança, a falta de investimentos em saúde, educação e infraestrutura. Confira a íntegra do documento abaixo:

ESCLARECIMENTO E ALERTA À POPULAÇÃO

O Conselho Federal de Medicina, através de seu Plenário, reunido em sessão ordinária entre 04 e 06 de junho de 2014 vem a público
ESCLARECER QUE:
1 - Desde sua criação há 57 anos, esta autarquia federal se posicionou sempre ao lado das causas que defendam a saúde do povo brasileiro;
2 - Dentre tais causas está o apoio à construção de leis e campanhas de combate ao tabagismo e abuso de bebidas alcoólicas por entender que seu uso sem restrições é nocivo à saúde;
3 - Tem se aliado às entidades e grupos que trabalham para banir da mídia as propagandas de bebidas alcoólicas por entendê-las nocivas à saúde pública e incentivadoras, entre crianças e jovens, à formação de consumidores e futuros dependentes;
ALERTAR QUE:
4 - Não se deve confundir o uso médico de "canabinoides" (isolados, titulados e pesquisados para uso medicinal) com o produto in natura para uso fumado ou ingerido, o qual não apresenta valores científico ou terapêutico;
5 - Defende a pesquisa com quaisquer substâncias ou procedimentos para combater doenças, desde que regidos pelas regras definidas pelo sistema CEP/CONEP e aplicados em centros acadêmicos de pesquisa;
6 - A ANVISA representa a autoridade federal que registra produtos e substâncias para uso em pesquisa ou comercial, obedecendo a sérias regras de segurança;
7 - Ao CFM, conforme previsto na Lei 12.871/2013, cabe o reconhecimento científico de substâncias e procedimentos para utilização na prática médica;
8 - O atual debate no parlamento sobre a descriminalização/legalização das "cannabis indica e sativa" para consumo "recreativo" desvia a atenção do povo brasileiro do debate sobre temas cruciais como a insegurança, a falta de investimentos em saúde, educação e infraestrutura;

CONCLUIR QUE
9 - Por todo exposto, se manifesta contrário à liberação para uso recreativo de quaisquer substâncias que ofereçam riscos a saúde pública e gerar despesas futuras para nosso combalido sistema de saúde e securitário.

Brasília, 6 de junho de 2014
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM)

domingo, 23 de março de 2014

Apoio á vacinação anti HPV


Eduardo Ribeiro Mundim

Como médico cristão, sinto-me compelido, pelas reações à campanha governamental de vacinação anti-HPV1, a colocar os pontos abaixo para discussão com todos aqueles interessados.

Entendo que o governo da sociedade civil tem origem divina, com a missão de zelar pelo interesse comum, buscando as melhores condições de vida, saúde, educação e recreação a todos os cidadãos, sem nenhuma distinção que não seja originada de preceito legal.

Entendo que, mesmo sendo de origem divina, o governo da sociedade civil não deve ser tributário de nenhuma confissão religiosa – tal subordinação implicaria em elevar uma à condição superior às demais.

Entendo que quando um governo deixa de tomar uma medida, dentro do estatuto legal que o rege, que reduz o número de pessoas doentes e impede o sofrimento desnecessário é negligente com seus deveres.

A vacinação anti-HPV deve ser entendida neste contexto.

Não é a única medida efetiva contra a infecção por este vírus. Mas ao pensar nas possibilidades de contaminação e transmissão no meio de quase 200 milhões de pessoas é, sem dúvida, a mais realista e eficaz.

Por isso, como cristão, entendo ser imperativo ético, do qual não posso me furtar, apoiar a campanha de vacinação anti-HPV. Este mesmo me constrange a apontar, se necessário, desvios indesejáveis e propor correções.

Entendo que os irmãos que a ela se opõe o fazem levando em consideração situações particulares de vida, que não são o retrato da maioria da população brasileira. O mesmo imperativo ético nos impõe a fidelidade conjugal, dentro da qual não há o que temer qualquer doença sexualmente transmissível.

O amor à verdade força-me a não fechar os olhos ao que presencio no labor profissional cotidianamente: que cristãos frequentemente não praticam aquilo que suas denominações religiosas ensinam como vontade de Deus para suas vidas.

Qualquer metodologia de pesquisa tem suas falhas inevitáveis, o que não invalida, necessariamente, suas conclusões. O que vejo enquanto profissional da saúde, ao menos uma pesquisa aponta como fato2. Quase 2% dos homens evangélicos já mantiveram relações sexuais com travestis; mais que 50% de homens e mulheres evangélicos mantiveram relações sexuais com seus esposo(a)s antes do matrimônio; quase 12% das evangélicas e 25% dos evangélicos admitem terem traído seus cônjuges.

Portanto, tenho que apontar aos irmãos contrários à campanha, que o ideal defendido ainda não é o real, e a campanha tem o potencial de proteger a todos.

Discordo que a vacinação seja um incentivo à prática sexual precoce. Se assim o fosse, também seria um incentivo a informação da existência de preservativos e anticoncepcionais; a não separação entre os sexos nos momentos de culto e estudo bíblico; a própria sexualidade individual, que somente pode ser reprimida ao preço alto de doenças psicológicas.


segunda-feira, 17 de março de 2014

De Hipócrates à hipocrisia

Gil Castelo Branco*

O mais famoso médico da Grécia antiga, Hipócrates, considerado o pai da Medicina, dizia: “Para os males extremos, só são eficazes os remédios intensos.” A frase é oportuna quando se observa que a Saúde no Brasil encontra-se em colapso. Do Sistema Único de Saúde (SUS) aos planos privados, alguns verdadeiras arapucas.
Apesar da crise, políticos permanecem enaltecendo o SUS, muito embora só utilizem o Sírio (Hospital Sírio Libanês), onde são recebidos à porta pelos professores-doutores de plantão. Enquanto isso, menos da metade dos cidadãos confia nos hospitais aos quais têm direito como simples mortais.

Pesquisa da ONU, divulgada no primeiro trimestre deste ano, com base em dados coletados entre 2007 e 2009, revelou que entre 126 países o Brasil ficou em 108° lugar no que diz respeito à satisfação com a qualidade dos serviços prestados. Apenas 44% dos brasileiros sentem-se satisfeitos com os padrões aqui oferecidos. Em nenhum país da América Latina, à exceção do Haiti (35%), foi identificado índice tão baixo quanto o que os brasileiros revelaram. Nesse campeonato, perdemos, por exemplo, para o Uruguai (77%), Bolívia (59%), Afeganistão (46%) e Camarões (54%), onde a população considera os serviços de saúde melhores do que a percepção que temos sobre os nossos.

Aparentemente, o dinheiro não é o fator que mais contribui para o caos. Conforme dados da OMS de 2011, somando-se todas as principais formas de financiamento (impostos/contribuições sociais, sistemas privados de pré-pagamento e desembolsos diretos dos pacientes), o Brasil gasta anualmente com saúde 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é semelhante ao da Espanha (9,4%) e não muito inferior às aplicações da França (11,6%). No entanto, na maioria dos países desenvolvidos a maior parcela do financiamento provém de fontes públicas que respondem, em média, por 70% do gasto global. Em nosso país, o setor público ─ que atende 150 milhões de pessoas ─ contribui com apenas 45,7% do total das despesas integrais com Saúde.
Nesse cenário, será que nos últimos anos a Saúde tem sido considerada como prioridade entre as políticas públicas? O programa Mais Médicos irá salvar a saúde da pátria? Infelizmente, ambas as respostas são negativas.

Ainda que os recursos globais do Ministério da Saúde tenham aumentado nos últimos anos, as despesas realizadas mantiveram praticamente a mesma relação com o PIB. Em 2002, o total pago representou 1,87%, percentual que subiu para 1,88% em 2012. Em suma, de FHC a Dilma, com ou sem CPMF, trocamos seis por meia dúzia.

Quanto aos investimentos em Saúde (construção de hospitais, UPAs, aquisições de equipamentos etc.), nos últimos 12 anos foram autorizados nos orçamentos da União R$ 67 bilhões, mas apenas R$ 27,5 bilhões (41%) foram pagos. A título de comparação, o Ministério da Defesa investiu no mesmo período R$ 56,2 bilhões, literalmente o dobro das aplicações da Pasta da Saúde. Estamos comprando blindados, aviões de caça e construindo submarinos nucleares para enfrentar imagináveis inimigos externos enquanto, por aqui, mais de um milhão de brasileiros protestam por serviços públicos de melhor qualidade.

Em 2013, a situação é semelhante. A dotação prevista para os investimentos do Ministério da Saúde é de R$ 10 bilhões. Até setembro apenas R$ 2,9 bilhões foram pagos, incluindo os restos a pagar. O valor investido coloca o Ministério da Saúde em 5° lugar comparativamente aos outros ministérios.

Na verdade, há muito por fazer. Para começar, é difícil imaginar um país saudável em que quase a metade dos domicílios não tem rede de esgotos. Por opção, vamos gastar R$ 7,1 bilhões nos estádios de futebol padrão Fifa, enquanto em dez anos aplicamos somente R$ 4,2 bilhões em saneamento. O Mais Médicos ─ mesmo sem o Revalida e com certificados distribuídos a esmo ─ vai gerar o primeiro atendimento em cidades até então desprovidas, o que é bom. Mas por trás das “boas intenções” está a reeleição de Dilma, o fortalecimento da candidatura de Padilha ao governo de São Paulo, além do financiamento da ditadura cubana.

Dessa forma, o programa passa ao largo de questões cruciais como a necessidade de mais investimentos públicos, melhor gestão, atualização das tabelas de ressarcimento do SUS, aumento das vagas nos cursos de Medicina, nas UTIs e nas residências médicas, entre outros problemas a serem enfrentados. Tal como dizia Hipócrates, urgem remédios intensos. A reconstrução da saúde no Brasil exige mais ações e menos hipocrisia.

* É economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas.

fonte: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=24527:de-hipocrates-a-hipocrisia&catid=46

domingo, 9 de março de 2014

20 anos de SUS - uma avaliação do Banco Mundial

It has been more than 20 years since the 1988 Constitution formally established the Brazilian Unified Health System (Sistema Único de Saúde, SUS). The impetus for the SUS came in part from rising costs and a crisis in the Social Security system that preceded the reforms, but also from a broad-based political movement calling for democratization and improved social rights. Building on reforms that started in the 1980s, the SUS was based on three overarching principles: (a) universal access to health services, with health defined as a citizen’s right and an obligation of the state; (b) equality of access to health care; and (c) integrality (comprehensiveness) and continuity of care. Other guiding ideas included decentralization, increased participation, and evidence-based prioritization (Couttolenc 2011a).

The SUS reforms established health as a fundamental right and duty of the state and started a process of fundamentally transforming Brazil’s health system to achieve this goal. This report focuses on two questions: What has been achieved since the SUS was established? And what challenges remain in achieving the goals that were established in 1988? The report assesses whether the SUS reforms have transformed the health system as envisaged more than 20 years ago and whether the reforms have led to improved outcomes with regard to access to services, financial protection, and health status.

Any effort to assess performance confronts a host of challenges concerning the definition of boundaries of the “health system,” the outcomes that the assessment should focus on, the sources and quality of data, and the role of policies and reforms in explaining how the performance of the health system has changed over time. Building on an extensive literature on health system assessment, this report is based on a simple framework that specifies a set of “building blocks” that affect intermediate outcomes such as access, quality, and efficiency, which, in turn, contribute to final outcomes, including health status, financial protection, and satisfaction. Based on this framework, the report starts by looking at how key building blocks of Brazil’s health system have changed over time and then reviews performance with regard to intermediate and final outcomes. The report is, however, selective, and some important building blocks, such as human resources and pharmaceuticals, are not discussed systematically.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Saúde representa só 8% do total de investimentos públicos no Brasil


Dos R$ 47,3 bilhões gastos com investimentos pelo Governo Federal em 2013, o Ministério da Saúde foi responsável por apenas 8,2% dessa quantia, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM). Dentre os órgãos do Executivo, a Saúde aparece em quinto lugar na lista de prioridades no chamado “gasto nobre”. Isto significa que as obras em rodovias, estádios, mobilidade urbana e até armamento militar como blindados, aviões de caça e submarinos nucleares ficaram a frente da construção, ampliação e reforma de unidades de saúde e da compra de equipamentos médico-hospitalares para atender o Sistema Único de Saúde (SUS).

 “O SUS precisa de mais recursos e por isso entregamos ao Congresso Nacional mais de dois milhões de assinaturas em apoio ao projeto de lei de iniciativa popular Saúde+10, que vincula 10% da receita bruta da União para o setor. Por outro lado, é preciso que o Poder Executivo priorize e aperfeiçoe sua capacidade de gerenciar os recursos disponíveis”, criticou o presidente do CFM, Roberto d’Ávila. “Não bastasse o setor ter sido preterido em relação a outros, quase R$ 5,5 bilhões deixaram de ser investidos no ano passado”, acrescentou. 

Com base em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), o CFM revela em detalhes os resultados da falta de qualidade da gestão financeira em saúde. Do total de R$ 9,4 bilhões disponíveis para investimentos em unidades de saúde em 2013, o governo desembolsou somente R$ 3,9 bilhões, incluindo os restos a pagar quitados (compromissos assumidos em anos anteriores rolados para os exercícios seguintes). Os valores foram bem inferiores aos investimentos dos Transportes (R$ 11 bilhões), Defesa (R$ 8,8 bilhões), Educação (R$ 7,6 bilhões) e Integração Nacional (R$ 4,4 bilhões). 

“Até compreendemos a necessidade de proteção da soberania nacional. No entanto, milhões de profissionais de saúde e pacientes enfrentam uma guerra real nas filas das urgências e emergências de todo o país, onde vidas são ceifadas diariamente por falta de equipamentos para cirurgias, diagnósticos e leitos”, acrescentou o vice-presidente do CFM, Carlos Vital. Para 2014, R$ 9,9 bilhões estão previstos para investimentos na Saúde.

Em 13 anos, R$ 47 bilhões deixaram de ser investidos – Os dados apurados pelo CFM mostram ainda que, nos últimos 13 anos (2001 a 2013), foram autorizados R$ 80,5 bilhões específicos para este fim. No entanto, apenas R$ 33 bilhões foram efetivamente gastos e outros R$ 47,5 bilhões deixaram de ser investidos. Em outras palavras, de cada R$ 10 previstos para a melhoria da infraestrutura em saúde, R$ 6 deixaram de ser aplicados. 

Para exemplificar, o presidente do CFM cita que, com R$ 47,5 bilhões, seria possível adquirir 386 mil ambulâncias (69 para cada município brasileiro); construir 237 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) de porte I (43 por cidade); edificar 34 mil Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de porte I (seis por cidade) ou, ainda, aumentar em 936 o número de hospitais públicos de médio porte. “Sabemos que esse dinheiro não seria aplicado todo em uma única ação, mas pela comparação com o que se poderia fazer, tomamos consciência do tamanho do desperdício”, alerta Carlos Vital.  
Compare no gráfico abaixo a relação dos investimentos da Saúde com outros ministérios:
Investimentos em 2013
Investimentos em 2013
Confira a série histórica de investimentos federais na Saúde:
Investimentos da Saúde
Investimentos da Saúde